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by:Cruz.Orlando

A microrregião do cacau no Sul da Bahia se configurou tendo como base o latifúndio da terra, do poder político nas mãos dos coronéis do cacau e da precarização sócio econômica dos trabalhadores rurais. Esse tripé de desenvolvimento regional foi mantido com a contribuição do Estado brasileiro, período este que se prolongou entre os anos de 1930- 1980, quando, após esse período, este rompeu com a forma costumeira de intervenção nos momentos de crise.

A Crise do Cacau e o ‘Caos’ Social da região Sul da Bahia
Cacau - A Saga de uma Região - Revisão e adaptação: Orlando Cruz

Sempre se associou o cacauicultor a luxúria, exacerbação do gosto pela ostentação e ao prazer. Alguns promoviam farrombas homéricas, como chegar nos bregas (casas de prostituição) chiques e patrocinar chuvas de dinheiro. Mas havia também os que colocavam dinheiro a serviços de opções sérias, como estimular e custear os estudos dos filhos em grandes cidades ou mesmos outros continentes como a Europa e EUA, de onde foram produzidas mentes que brilharam ou brilham na quase indigência.

Vamos lembrar aqui um personagem que teve um período de ostentação e poder chamado "Lan Lan", que imperou por vários anos a frente do poderoso CNPC - Conselho Nacional dos Produtores de Cacau, figura que ficou famosa quando fretou um boeing para levar produtores a Brasília a fim de encontra-se com o então ministro da Agricultura, Pedro Simon. Seu último paradeiro dava conta que trabalha como vendedor ambulante em nossa Estado.

Temos ainda o sobrinho de um ex-deputado, um boêmio que desfilava em carrões ao lado de belas mulheres, sempre acompanhado de seu uísque preferido, o ' Logan" . Atualmente faz jogo do bicho nas ruas de Ilhéus.

Enfim, " a lavoura cacaueira que já encheu muitas burras públicas, passou de conto de fadas a filme de terror", como sintetiza o escritor Hélio Pôlvora no livro Crônicas da Capitania. Um outro produtor de Ubatã com produção acima de 25 mil arrobas atentou contra a vida após perder sete carros, 04 apartamentos e 300 empregados.


O Dia do Terror
A doença Vassoura-de-bruxa, (Crinipellis perniciosa)"Stahel" Singer, aqui identificada em 1989, bem como a ocorrência da doença podridão parda nos anos agrícolas 91/92 e 92/93; mas um longo período de estiagem 93/97, provocaram uma devastação nas fazendas cacau e que, associados a queda dos preços do produto no mercado internacional, resultaram no abandono de propriedades, mais de 200 mil trabalhadores desempregados e finalmente na falência total dos produtores, ocasionando assim o maior caos Social da região Sul da Bahia.
A Vassoura-de-bruxa não é só um fenômeno fitopatológico, quando da sua chegada a CEPLAC já á conhecia há muito tempo. O cacauicultor, como todo monocultor de lavoura lucrativa, acreditava que a monocultura não teria fim.
Existiam agricultores que administravam as suas fazendas por fax, mantendo residências em grandes centros como Rio, São Paulo e Salvador.

“Foi uma violência. Pensei em me suicidar, mas o amor pela minha mulher e pelo meus filhos falou mais alto, graças a Deus”. Comentário do agricultor FLF, um dos proprietário do conjunto Santana, em Uruçuca, local onde a vassoura-de-bruxa foi detectada pela primeira vez na Bahia, também o primeiro rico a ficar pobre literalmente da noite para o dia. Hoje é dono de um singelo depósito de bebidas em Ilhéus e ganha a vida atrás de um balção, despachando cerveja e cachaça no varejo. FL produzia 15 mil arrobas e tinha 200 trabalhadores. Quando a praga foi constatada, a CEPLAC montou verdadeira operação de guerra na área, erradicando completamente os cacauais de 13 fazendas, incinerando as plantas e bombardeando o terreno com toneladas de fungicidas.
“Foram atos estúpido e agressivo”, recorda. Ele ganhou a ação que moveu contra a União em todas as instâncias, mas 15 anos depois ainda não foi indenizado.

O Fruto de Ouro
Nunca vai existir nada igual ao cacau.“É uma lavoura singular”. Se um produtor abandonar a roça por três anos e depois resolver cultivá-la, no primeiro ano ela se recupera e responde bem. O fruto aguenta maduro no pé até 60 dias. A cabaça fica preta, parecendo que está podre, mas quando é partida as amêndoas estão boas. Na roça, depois de quebrados, suporta mais de uma semana. Depois é levado para o cocho e ali tolera de oito a quinze dias. Aguenta seis meses de armazenagem sem problemas. E há muita facilidade de comercialização. Vende-se até o que ainda não existe, ‘o cacau na flor’. Nunca haverá lavoura igual!


Palavras de um ex-garimpeiro, motorista, madeireiro, pescador, serrador, comerciante, funcionário do DERBA, político e agricultor de Camacan. Proprietário da fazenda onde a vassoura-debruxa foi constatada pela segunda vez, jogando por terra todas as esperanças de que a doença tivesse sido debelada em Uruçuca. Producia 100 mil arrobas anuais tendo sido o maior produtor de cacau do mundo.
Ao saber da má notícia, reuniu a mulher e os 13 filhos e praticou o ato que iniciou os dias de angústia para os que temiam ficar pobre. "Meus filhos, cada um de vocês deve procurar um jeito de se arrumar na vida. Estou pobre", disse, laconicamente. E daí partiu a suas fazendas para fazer o mesmo comunicado aos seus 700 enpregados. “Vou pagar a todos, mas cada um procure o seu destino. Nada posso fazer”.
Via a fonte de sua fortuna com os dias contados e os adversários dizendo que le trouxe a vassoura-de-bruxa para a região. Não suportou. Criava boi por hobby. Juntou duas mil cabeças. O que era lazer funcionou como poupança. Com o dinheiro da venda da boiada pagou a indenização dos trabalhadores e outros credores. Sofreu um derrame cerebral e foi para São Paulo entre a vida e a morte. Morreu no dia 22/10/1999.

De Paris a Calçadas
Amigo de Pelé, Stevie Wonder, Carlos Bastos, Di Cavalcanti, antigo dono das fazendas Modelo e Bom Jesus, em Barra do Rocha, e do bar Anjo Azul, na Rua do Cabeça, falando inglês, italiano, francês e espanhol, já morou em Londres, Nova Iorque e Paris, vindo parar sobre as marquises do Porto da Barra, em Salvador, e de Ipiaú como mendigo.
"São etapas da vida. Não tenho nada a reclamar. Não sinto saudades e nem depressão". Depoimento de um outro grande produtor de cacau D.A.V, que hoje vive humildemente numa fazenda do sobrinho nos arredores de Ipiaú.

Entrevistado pelo Fantástico, da Rede Globo, teve sua biografia (Sobrevoando as Marquises), escrita pela jornalista Regina Echeverrya, a mesma autora das de Elis Regina e Cazuza.
“Certa feita combinou com Pelé, Jorge Amado e Carlos Bastos para todos comprarem terrenos na Rua do Calango Verde, na Pedra do Sal, em Itapuã, onde já estava instalado Calazans Neto. Chamavamos de o Condado de Itapuã”, conta D.A.V, que nos seus tempos de sarjeta passoua a fazer o quem é quem dos antigos amigos. “Alguns retorciam o nariz, fugiam, e desses eu também fazia questão de cortar voltas. Mas outros se aproximavam, choravam, querendo me tirar da rua, mas eu voltava, me sentia bem, só me preocupava com os tubos(garrafa de cachaça)”.
O mesmo lembra que uma vez estava sob a marquise do Grande Hotel da Barra, onde várias vezes foi hóspede de suítes de luxo, quando o proprietário, Sr. Garrido, antigo vizinho no Edifício Casablanca, chegou e perguntou: O que estás a fazer aí, Sr.? E ele respondeu “Sou seu hóspede, mais uma vez”.

Em resumo, se a crise da lavoura cacaueira foi devastadora para os produtores, para os trabalhadores também foi. O eco da história e do drama desses últimos é mais difuso, talvez por não terem muito o que recordar, estarem dispersos e presionados, prisioneiros da atualidade e de suas lembranças.

Esta região que tanto contribui para os cofres do Estado mergulhou ao fundo do posso assistida por um socorro tardio dos seus governantes que foram cumplices do maior desatre socio-econômico e cultural vivenciado neste país. Foi o verdadeiro ‘caos social’.


A crise da lavoura do cacau vem arrastando-se desde a segunda metade da década de 80, atribuindo-se principalmente a um período de estiagem em 1986. Sendo que o principal elemento contigente desta crise foram os baixos preços do cacau. Todas estas ocorrências foram agravadas com o surgimento da doença Vassoura de Bruxa em 1989. Nesta época estimava-se de 175 mil a 200 mil trabalhadores rurais, hoje passados quase 20 anos é muito difícil estimar o número de trabalhadores existentes na região.


FONTE: JORNAL A TARDE - Edição de 08/03/2001 - Caderno de Economia - Pgs.05 e 06.
CRUZ - Orlando Ribeiro - Pesquisador e historiador da Cultura do Cacau
Os Coronéis do Cacau” (1995), de Gustavo Falcón